| |
Domingo, Março 23, 2008
|
9:27 PM
Pois então segue nova matéria, desta vez sobre o Fandango na Ilha do Superagüi - litoral norte do Paraná.
Tudo como antes, dividida em partes publicadas a cada dois dias e com fotos (!) de Bruno Oliveira.
Foram três dias de imersão e e certa dose de emoção, devido à forte chua que nos seguiu por aquelas bandas.
==
Allegro ma non troppo
Os últimos acordes do Fandango na ilha do Superagüi
Pés largos. Castigados. Unhas esburacadas imersas em havaianas azuis desbotadas que lutam para permanecer sob aqueles membros que, lépidos, viram para lá... e para cá... o leme de madeira do barco Salmo 122. Do ângulo que me era oferecido, o sujeito era só meia pessoa. Um pedaço de tronco. Pernas e pés. Era como se eu voltasse a ser criança e visse tudo de baixo para cima, subordinadamente. A estibordo, uma jovem com brinco de borboletas prateadas imergia em pensamentos, catalisada pelo molejo do início da viagem. Encorujava-se. Junto a ela, um sujeito parrudo e com sorriso teimoso, que sempre aparecia. Conversavam sobre a Ilha do Mel, um dos pontos turísticos mais conhecidos do litoral paranense. A bombordo, uma figura interessante. Alto, um palito de magro. A camiseta branca da Adidas contrastava com sua aparência neo-hippie, confirmada pelos longos cabelo e barba - esta embranquecendo e aquele rareando. Usava óculos escuros em dia chuvoso; deitou-se no banco de madeira pintado de azul e cobriu-se todo, fazendo das malas travesseiro. Dos pés sujos aos cabelos sebosos via-se o cobertor de tom pastel. Protegeu-se do vento e da chuva logo após contemplar o Grimaldi Lines, navio grandioso que se destacava no Porto de Paranaguá em meio a toda aquela garoa. O outro tripulante – ou passageiro (fazia as vezes dos dois) – tentou imitar o friorento. Foi assim: vestiu uma jaqueta jeans desbotada, colocando um maço de Carlton vermelho no bolso esquerdo. A carteira – preta e gorda – foi no direito. Da bermuda, retirou duas balas Freegells de cereja e algumas moedas; deitou-se no banco. Desistiu. De súbito, foi da popa à proa. Deitou-se. Cobriu-se.
"Já peguei altas tempestades, vixe." Júlio Castanho, 23 anos de vida e mar, desloca a bala de um lado a outro da boca para continuar a conversa. "Trabalho com esse bicho aqui há seis anos," diz o capitão do Salmo 122, já com capa de chuva preta, que ia até as canelas.
- Ah???
- ... no Superagüi
- Oi?
- Eu! Eu.... no Superagüi sim!"
- Ah, desculpe. É que o barulho... muito alto, né?
- Ah???
É só falar por mais de cinco minutos ao lado daquela caixa de madeira barulhenta onde o motor range alto que a garganta já reclama. É um tatatatatatatatatatatatatatatata incessante, inconveniente. Doloroso. Mesmo em condições sonoras ideais a entrevista não duraria muito. Logo as marolas aumentaram consideravelmente. Os outros passageiros – saco de laranja, de batata, cinco melancias, leite, pêssego, alface e três botijões de gás – reclamaram também. Rolaram para lá... e para cá... requisitando atenção para voltar aos seus lugares originais. Tempos depois estávamos todos de pé. Eu segurava na lateral com a mão esquerda e nas ripas de madeira na parte superior do barco com a direita. À frente, um apito, antes amarrado a uma das 23 bóias, largava-se ao mundo devido às pancadas e reboliços daquele mar, naquela tarde de sábado. Por mais de uma hora bailamos ao som das ondas. "Por causa dos meus irmãos e amigos, direi: haja paz dentro de ti." O Salmo 122 foi valente, embora sucumbisse parcialmente à algumas manifestações nada pacíficas daquele mar aberto. Por mais de uma hora avistamos cinza e ouvimos ricochetes. Aos poucos, marola virou espuma; tensão deu lugar à ironia; os pés ao leme deram lugar às mãos também calejadas que ajudavam com as bagagens. Era lá. Superagüi.
Kent - Du Är Anga.mp3
Do the magic...
Quarta-feira, Março 12, 2008
|
11:30 PM
Cheat
Impressão minha ou as faixas mais tocadas em muitos players nesse último mês foram as 12, escolhidas a dedo, da trilha sonora de Juno? E mais, a faixa 17 – Anyone Else But You – originalmente do Moldy Peaches e interpretada pelos próprios atores, Michael Cera e Ellen Page, lidera a lista, certo? Ao menos é isso que algumas playlists do Last.fm denunciam.
Tudo bem, eu entendo. É uma música deveras batuta. Chicletona sem ser piegas, letra original e metricamente bem construída. A dupla voz + violão é infalível, principalmente com a passagem que faz qualquer um esboçar um sorriso bobo que combina com a própria Juno:
Up up down down left right left right B A start
Just because we use cheats doesn't mean we're not smart
Já me disseram ser a seqüência de um dos fatalities do Mortal Kombat III, mas confesso que não lembro. O que descobri é que se trata, isso sim, do nome de uma banda (!). Mais: um dos três álbuns do grupo chama-se “The Worst Band Name Ever.” Rá!
The Moldy Peaches - Anyone Else But You.mp3
Do the magic...
Terça-feira, Março 11, 2008
|
1:56 PM
Abu em Ctba
Foram três shows em um. Seus mais de 100kg anteriores repartiram-se em partes proporcionais, dando aspecto mais saudável ao ex-gordinho e novas oportunidades musicais aos ouvidos dos presentes no Era Só o que Faltava no último dia 7 de março. André Abujamra – magro em pessoa –, Fat Marley e Gork. De saco pra mala em três horas de show.
O André continua divertido. Cheguei na metade do espetáculo, exato momento em que o branco de alma preta pedia colaboração. Deveríamos fechar os olhos por cinco segundos para marcar o "intervalo" do show. A maioria das últimas músicas foram do disco mais recente – Retransformafrikando.
Fat Marley é o projeto eletrônico - do agora curitibano – Abu. Acompanhado de um baixista virtuose e de um baterista com um pedal no jazz, André esconde-se sob capa vermelha e chapéu negro. É interessante e dissonante, apesar das belas melodias sintetizadas.
Gork é punk rock sujo. O terceiro dos Andrés subiu ao palco sem camisa e com marias-chiquinhas no cabelo. "Vãopa, vãopa, vãopaputaqueopariu!" As músicas fizeram pseudo jovens cool-cults deixarem a cerveja de lado e partirem para a "briga", em imitação quase infantil do que acontece em shows de punk de verdade.
É temeroso escrever isso, mas em tudo que André Abujamra faz há algo de genial. Seja pop, eletrônico, punk, trilha sonora, jingle, novela...
--> Você pode baixar o Infinito de Pé aqui. E quando o fizer, não deixe de ouvir a última faixa, Curriculum. Por favor.
--> Você também pode baixar o Retransformafrikando aqui, ó:
André Abujamra - Curriculum.mp3
Do the magic...
|
|