Cristiano Luiz Castilho Jornalista. Por quê a vida é feita de boas histórias que procuram almas preparadas para contá-las.

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Bruno Oliveira

Marcelo Urânia

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Segunda-feira, Junho 02, 2008 | 4:30 PM

De tão rústica, a viola não tem método de afinação. Normalmente o instrumento é "temperado" e a turina retesada na mesma altura do tom de voz em que vão cantar - geralmente Lá Maior. O tamanco é essencial e sua batida é a alma do Fandango. Alguns fandangueiros são chamados de machadinhos, pela "habilidade" em rachar o assoalho onde dançam. O calçado, grosso, sólido, e exclusivo dos homens – mulheres não batem Fandango - é feito de cepos de laranjeiras. Funcionam perfeitamente em ambiente adequado, cada vez mais raro. O Akdov tinha apenas alguns requisitos: a casa sem forro e o assoalho, que estava a uma boa distância do chão – a casa típica do Fandango tem debaixo do assoalho uma cova de três a quatro metros de diâmetro por dois de profundidade. Funciona como uma verdadeira caixa acústica. O que finaliza o quarteto é a rabeca, espécie de violino, dificílimo de tocar. As alturas das notas não são estipuladas; cada rabeca é diferente da outra, não há padrão no processo de construção. O desenho de seu arco é feito com rabo de cavalo, fios de linha e cipó. O breu – óleo obtido a partir da secreção resinosa de plantas – garante a qualidade do som. As cordas... bem, as três ou quatro cordas da rabeca eram feitas com tripa de mico. Hoje, são de arames de aço que ressoam em meio ao molde de caxeta.
No Akdov, uma prova viva da ranzinzice do instrumento e do velório vivo do Fandango: encostada no fundo do bar, atrás do balcão, uma rabeca sonolenta. Adormecida e pendurada. Nela, pássaros entalhados eram o único arquétipo musical. "Estragou e não tem quem arrume... e ninguém mais sabe tocar isso aí." Laurentino vicejou olhares saudosos. E logo continuou limpando a mesa de madeira com seu pano branco, eterno acompanhante.

O Fandango? O Fandango está morrendo.

Chegara a hora. Era pouco mais de 22h30 de sábado e o palco improvisado estava pronto. Num cantinho humilde, ao lado do balcão do Akdov. Perto de Laurentino e da cataia. Eram quatro cadeiras. José Isquinini e Odair Siqueira, os violeiros, ocupavam duas delas. O adufe não tinha porto seguro, passando de mão em mão, alternando "tás" e "tuns" e "trins." O Fandango já é uma lenda. Porque demora. Demora a começar. E demora a acabar. As músicas são longuíssimas, cerca de 12 minutos, sem interlúdios. O intervalo entre uma e outra são compostos de acordes solitários e cacofônicos, também à beira da agonia. Conversas despretensiosas e goles de cataia substituem parcialmente o silêncio. No contratempo de tudo isso, a lamentação das violas e suas turinas aleijadas; o murmúrio desencontrado de vozes harmonicamente despreocupadas; a batida constante e hipnótica de um atabaque enxerido e, vez em quando, um Laurentino batendo num Adufe já castigado:

Vou embora, vou embora,
Larilalai
Hei de vir quando eu quiser
Larilalai
Vou embora, vou embora,
Larilalai
Hei de vir quando eu quiser
Larilalá-ai

Hei de vir quando eu quiser,
Larilalai
Quem quiser falar comigo
Larilalai
Quem quiser falar comigo,
Larilalai
Estarei quando eu vier
Larilalá-ai

Man Man - Rabbit Habbits.mp3

Do the magic...

Quarta-feira, Maio 14, 2008 | 11:35 AM

Eram os índios Carijós os habitantes do litoral do Paraná quando da chegada dos primeiros colonizadores, vindos do norte de Portugal. Os patrícios eram originários de classes simples, menos abastadas. Em contrapartida, traziam na bagagem a cultura popular de suas vidas e vilarejos. O Fandango é melancólico. A dança bebeu também de Portugal a relação com viagens; idas e vindas por mares muitas vezes desconhecidos, que remetiam às expecativas e frustrações próprias da existência. O Fandango é triste. Saudade e melancolia em versos chorosos. Incerteza, introspecção, agruras do esperar. O Fandango é pesado. Tem o tom de despedida, tem a voz de quem vai embora.

O caiçara paranaense, lutando contra a vida – e zombando dela – incorporou o Fandango como uma de suas expressões mais genuínas. Provando que é algo mutável, dependendo das características que encontrou em diversos povos, o Fandango também existe no Nordeste, no interior do Paraná, no Rio Grande do Sul.

É como contar uma estória dizer que o Fandango deve suas origens mais remotas aos árabes, que o trouxeram para a Espanha e Portugal. Na Ibéria, o compasso ternário incorporou a guitarra e as castanholas. Deu origem ao Flamenco, ao Fado. Essas letras ainda hoje choram e falam sobre o destino do homem; suas buscas amorosas, decepções, desencantos e raras conquistas.

O Akdov vai enchendo aos poucos. Turistas curiosos sentam impávidos, esperando que algo aconteça. Nativos da ilha apóiam-se no balcão do bar, pedindo outra dose. Laurentino da Silva - dono do bar há seis anos - sente saudades. Do fogão à lenha; de tudo como era antes. Parece ser avesso ao progresso e à mudanças – vestiu a mesma camisa branca por três dias. Laurentino tem 49 anos e olhos estricnados. Seu tom é ameaçador; baixa um pouco a cabeça enquanto fala, tal qual touro em busca de seu objetivo rubro e do carrasco que o carrega. Laurentino é assim, sisudo e desconfiado. "Você que é um jornalista, né cara. Às vezes você vem dentro da ilha do Superagüi. Daí vê essas coisas acontecer, né cara, vai lá pra grande cidade, faz uma matéria com esses caiçara e essa matéria a gente não sabe, né cara." Parece que tudo ali – na ilha, no Akdov, nas palavras de Laurentino - tem algo a mais. Talvez fantástico, devido à música e à rusticidade. Talvez o mais real dos sentimentos, ao observar um confronto de culturas ou o próprio velório de uma delas. O Fandango, assim como os seus, é difícil e está morrendo.

Adufe, viola, rabeca e tamancas: o sumo do Fandango. Claro, todos os instrumentos com suas peculiaridades. Todos fabricados artesanalmente. O adufe é o pandeiro. Tem um aro feito de caxeta ou aracutim – madeiras que "não pegam bicho," abundantes na região – e os antigos vinténs que compunham a bateria deram lugar a tampinhas de garrafa. O adufe – ou adufo – é coberto com couro de cotia ou cachorro do mato. A necessidade disso está vinculada ao não aquecimento dos dedos do músico, garantidas pelas propriedades das peles. O adufe é torto, muito torto. E feio. O som da pele esticada é forte. As baterias ao lado vibram incessantemente. A viola do Fandango tem cinco ou seis cordas duplas, além da turina, meia corda. O corpo da viola geralmente é decorado com pequenos pássaros ou desenhos geométricos, feitos de canela ou imbúia. As peculiaridades artísticas determinam a identidade do artesão.

The Twang - Push the Ghosts.mp3

Do the magic...

Segunda-feira, Abril 07, 2008 | 10:19 PM

Areia dura e cinza, adornada por galhos encharcados e siris espivetados, além de seus cerca de 1300 moradores. Lá, trilhas são estradas. Superagüi é uma ilha comprida e fina. Tem perímetro de 339km. É artificial. Foi cortada pelo canal do Varadouro, aberto em 1953, e transformada em Parque Nacional em 1989. Nove anos depois, outra promoção. Foi intitulada Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO.

Ignorando-se títulos e honrarias, Superagüi é um retiro. Não há médicos. Não há policia; nem motivos para sua presença. Há a praia deserta, com seus 37 quilômetros de solidão. Há gente. Arredia e desconfiada gente. Há turistas – de curitibanos a dinamarqueses. Há o bar Akdov – leia ao contrário. Além do anagrama sugerido, ressoa em certa parte o espírito do lugar. Nele, finalmente e por enquanto, há o Fandango.

O Akdov é um portal. Casa simples, de madeira suja e descascada. À parede, um relógio do Rio Branco Esporte Clube – pequeno time de Paranaguá - é o adorno. Há mesas e cadeiras tímidas, que encontram seu lugar nas bordas do quadrilátero. Tudo em nome do Fandango, que requer espaço para "bater" e cataia para animar. Ao fundo do bar, atrás do balcão, uma garrafa escura e opaca. Dentro, um líquido castanho-avermelhado por sobre ervas deprimidas. É a cataia, combustível de fandangueiro. A bebida é feita com erva de mesmo nome só encontrada na barra do Ararapira, divisa litorânea entre paranaenses e paulistas.

A cena no Akdov antes do Fandango era essa: um silêncio retumbante entremeado por um violão desafinado por oito cervejas e seis sujeitos embriagados. O violão passava de mão em mão; os agudos, desafinados e sertanejos agudos da cantoria eram insuportáveis. O clima sugeria expectativa sobre o que estava por vir. Antes de tudo, porém, uma visita à casa de Alcides Ferreira, fandangueiro de 91 anos que não perde o passo e tampouco se encabula ao tirar meninas para dançar. Mesmo que sejam 70 anos mais novas que ele.

A casa era de um verde prosaico, desinteressado. Escuridão. À porta, via-se um ambiente pequeníssimo e simplório. Bancos de madeira, louças por lavar. Panelas tortas e enferrujadas por sobre fósforos mortos. Caixas de leite longa vida e potes de margarina empilhados na quase pia, antigamente branca. Destacava-se - por sobre a porta que ligava a sala-cozinha a outro cômodo escuro e inexplorado – um adesivo da campanha política de 2006: Requião Governador. Aquele azul brusco dialogando com um vermelho vibrante funcionava como uma fonte de luz à casa de seu Alcides, que tomava banho no cubículo à esquerda. Apenas uma parede de madeiras finas dividia os ambientes; a conversa começou ali mesmo. Alcides murmurava. Demorou a sair do banheiro, criando estranheza. A porta se abriu.



O pequenino senhor – a idade tem dessas, de encolher corpos e esperança - escondia-se num boné caramelo, numa camisa de linhas finas e verticais que, por sua vez, ocultava-se dentro da calça marrom. Olhos miúdos, fundos e vermelhos os de Seu Alcides; como se o pranto lhe viesse a cada instante. Daquele jeito que ficamos vez em quando, com olhos marejados ou canônicos. Alcides desatou a murmurar sobre um acidente que ocorrera num tempo tão distante quanto o som da sua voz. Perdera uma filha para o mar, senhor daquelas terras. E salvara outra, além de sua esposa. Foram palavras soltas e frases escusas, construindo um emaranhado de informações tristes e repentinas. Logo, tudo mudou.

- Já me diverti na Ilha do Mel, na Ilha Rasa. Já me diverti em Guaraqueçaba, Guapicu. Em Ararapira eu já me diverti. O verbo sugere muito. Tive de perguntar. "Divertir-se," para seu Alcides, é dançar o Fandango.
- Entrava de cabeça erguida e saia de cabeça erguida, me divertindo...
Nesse momento Alcides era cabisbaixo e estático. Falava muito, embora sua boca enrugada e seca, não denunciasse.
- A pesca acabou.

Ainda criança, Alcides lançou a primeira rede. Camarão "lá pra fora" era fartura. Peixe era fácil ali na barra. Era o garoto no barco. Sozinho, à noite.

- Aí acabou tudo.

Tainha, pescada. Barco cheio!

-Tainha dá muito pouco agora...

Camarão graúdo, nem precisava ir longe.

-Agora a pesca acabou.

Alcides não pesca mais. Seus braços, que um dia remaram canoa de Guaraqueçaba ao Superagüi – viagem que de barco movido a motor dura três horas – hoje pousam cruzados por sobre coxas finas. Seus olhos de felino atento à presa hoje piscam vez ou outra, serenos. Mais ainda quando relembram histórias. Seu Alcides ia assistir ao pai e à mãe baterem o Fandango. Ficava sentado, olhando aqueles passos barulhentos. Gostava muito da dança em pares, do ritmo idêntico dos corpos.

Aos doze anos, arriscou.

- Papai, vou experimentar pra vê se eu sei bater o Fandango.
- Meu filho, não faça isso. De repente você vai errar o Fandango, vai errar a dança, fica feio pra você.

Aos doze anos, ousou.

- Se eu começar a errar, já saio.

Esboçando um sorriso sem jeito, o ex-garoto exclamou e confirmou. "Que nada, rapaz. Desde a primeira vez já dancei direitinho, com menininha e tudo." O aviso do pai de Alcides não foi à toa. O Fandango é um rito. Cultura viva que merece dedicação. É genuíno, genético. Importante.

Lambchop - It's Not Alright.mp3

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Domingo, Março 23, 2008 | 9:27 PM

Pois então segue nova matéria, desta vez sobre o Fandango na Ilha do Superagüi - litoral norte do Paraná.
Tudo como antes, dividida em partes publicadas a cada dois dias e com fotos (!) de Bruno Oliveira.
Foram três dias de imersão e certa dose de emoção, devido à forte chuva que nos seguiu por aquelas bandas.

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Allegro ma non troppo

Os últimos acordes do Fandango na ilha do Superagüi


Pés largos. Castigados. Unhas esburacadas imersas em havaianas azuis desbotadas que lutam para permanecer sob aqueles membros que, lépidos, viram para lá... e para cá... o leme de madeira do barco Salmo 122. Do ângulo que me era oferecido, o sujeito era só meia pessoa. Um pedaço de tronco. Pernas e pés. Era como se eu voltasse a ser criança e visse tudo de baixo para cima, subordinadamente. A estibordo, uma jovem com brinco de borboletas prateadas imergia em pensamentos, catalisada pelo molejo do início da viagem. Encorujava-se. Junto a ela, um sujeito parrudo e com sorriso teimoso, que sempre aparecia. Conversavam sobre a Ilha do Mel, um dos pontos turísticos mais conhecidos do litoral paranense. A bombordo, uma figura interessante. Alto, um palito de magro. A camiseta branca da Adidas contrastava com sua aparência neo-hippie, confirmada pelos longos cabelo e barba - esta embranquecendo e aquele rareando. Usava óculos escuros em dia chuvoso; deitou-se no banco de madeira pintado de azul e cobriu-se todo, fazendo das malas travesseiro. Dos pés sujos aos cabelos sebosos via-se o cobertor de tom pastel. Protegeu-se do vento e da chuva logo após contemplar o Grimaldi Lines, navio grandioso que se destacava no Porto de Paranaguá em meio a toda aquela garoa. O outro tripulante – ou passageiro (fazia as vezes dos dois) – tentou imitar o friorento. Foi assim: vestiu uma jaqueta jeans desbotada, colocando um maço de Carlton vermelho no bolso esquerdo. A carteira – preta e gorda – foi no direito. Da bermuda, retirou duas balas Freegells de cereja e algumas moedas; deitou-se no banco. Desistiu. De súbito, foi da popa à proa. Deitou-se. Cobriu-se.

"Já peguei altas tempestades, vixe." Júlio Castanho, 23 anos de vida e mar, desloca a bala de um lado a outro da boca para continuar a conversa. "Trabalho com esse bicho aqui há seis anos," diz o capitão do Salmo 122, já com capa de chuva preta, que ia até as canelas.
- Ah???
- ... no Superagüi
- Oi?
- Eu! Eu.... no Superagüi sim!"
- Ah, desculpe. É que o barulho... muito alto, né?
- Ah???

É só falar por mais de cinco minutos ao lado daquela caixa de madeira barulhenta onde o motor range alto que a garganta já reclama. É um tatatatatatatatatatatatatatatata incessante, inconveniente. Doloroso. Mesmo em condições sonoras ideais a entrevista não duraria muito. Logo as marolas aumentaram consideravelmente. Os outros passageiros – saco de laranja, de batata, cinco melancias, leite, pêssego, alface e três botijões de gás – reclamaram também. Rolaram para lá... e para cá... requisitando atenção para voltar aos seus lugares originais. Tempos depois estávamos todos de pé. Eu segurava na lateral com a mão esquerda e nas ripas de madeira na parte superior do barco com a direita. À frente, um apito, antes amarrado a uma das 23 bóias, largava-se ao mundo devido às pancadas e reboliços daquele mar, naquela tarde de sábado. Por mais de uma hora bailamos ao som das ondas. "Por causa dos meus irmãos e amigos, direi: haja paz dentro de ti." O Salmo 122 foi valente, embora sucumbisse parcialmente à algumas manifestações nada pacíficas daquele mar aberto. Por mais de uma hora avistamos cinza e ouvimos ricochetes. Aos poucos, marola virou espuma; tensão deu lugar à ironia; os pés ao leme deram lugar às mãos também calejadas que ajudavam com as bagagens. Era lá. Superagüi.




Kent - Du Är Anga.mp3

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Quarta-feira, Março 12, 2008 | 11:30 PM

Cheat

Impressão minha ou as faixas mais tocadas em muitos players nesse último mês foram as 12, escolhidas a dedo, da trilha sonora de Juno? E mais, a faixa 17 – Anyone Else But You – originalmente do Moldy Peaches e interpretada pelos próprios atores, Michael Cera e Ellen Page, lidera a lista, certo? Ao menos é isso que algumas playlists do Last.fm denunciam.

Tudo bem, eu entendo. É uma música deveras batuta. Chicletona sem ser piegas, letra original e metricamente bem construída. A dupla voz + violão é infalível, principalmente com a passagem que faz qualquer um esboçar um sorriso bobo que combina com a própria Juno:

Up up down down left right left right B A start
Just because we use cheats doesn't mean we're not smart


Já me disseram ser a seqüência de um dos fatalities do Mortal Kombat III, mas confesso que não lembro. O que descobri é que se trata, isso sim, do nome de uma banda (!). Mais: um dos três álbuns do grupo chama-se “The Worst Band Name Ever.” Rá!

The Moldy Peaches - Anyone Else But You.mp3

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Terça-feira, Março 11, 2008 | 1:56 PM

Abu em Ctba

Foram três shows em um. Seus mais de 100kg anteriores repartiram-se em partes proporcionais, dando aspecto mais saudável ao ex-gordinho e novas oportunidades musicais aos ouvidos dos presentes no Era Só o que Faltava no último dia 7 de março. André Abujamra – magro em pessoa –, Fat Marley e Gork. De saco pra mala em três horas de show.

O André continua divertido. Cheguei na metade do espetáculo, exato momento em que o branco de alma preta pedia colaboração. Deveríamos fechar os olhos por cinco segundos para marcar o "intervalo" do show. A maioria das últimas músicas foram do disco mais recente – Retransformafrikando.

Fat Marley é o projeto eletrônico - do agora curitibano – Abu. Acompanhado de um baixista virtuose e de um baterista com um pedal no jazz, André esconde-se sob capa vermelha e chapéu negro. É interessante e dissonante, apesar das belas melodias sintetizadas.

Gork é punk rock sujo. O terceiro dos Andrés subiu ao palco sem camisa e com marias-chiquinhas no cabelo. "Vãopa, vãopa, vãopaputaqueopariu!" As músicas fizeram pseudo jovens cool-cults deixarem a cerveja de lado e partirem para a "briga", em imitação quase infantil do que acontece em shows de punk de verdade.

É temeroso escrever isso, mas em tudo que André Abujamra faz há algo de genial. Seja pop, eletrônico, punk, trilha sonora, jingle, novela...

--> Você pode baixar o Infinito de Pé aqui. E quando o fizer, não deixe de ouvir a última faixa, Curriculum. Por favor.

--> Você também pode baixar o Retransformafrikando aqui, ó:

André Abujamra - Curriculum.mp3

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Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008 | 11:30 AM

Flanela de metal

Cheguei cedo ao aniversário de um amigo. Tarde-noite quente. Eram 19h daquela segunda-feira. Consegui estacionar o carro bem em frente ao Bar, dado o horário não boêmio. A vaga ficava perigosamente atrás de uma BMW prata reluzente.

- Pode vir, pode vir. Chega mais... aí. Aí tá bom.

O rapaz de colete verde-limão retirou os fones de ouvido e os guardou no bolso da calça jeans. Vestia também uma camisa branca, bem aprumada. Braços compridos e perdidos denunciavam a adolescência quando não coçavam a cabeça raspada.

- Português ou Madrid? - perguntou, titubeante.

Os bares ficam em esquinas do bairro Rebouças, vizinho do centro de Curitiba. Nunes Machado com Rua Chile. Um na esquerda, outro na direita, em analogia ibérica ao velho mundo.

A celebração tímida foi na Mercearia do Português, local aprazível, cheio de tons rubro-verdes, bolinhos crocantes de bacalhau e mosquitos. Muitos deles. De todos os tipos. Aqueles, com asas furta-cor e abobados. Aqueles outro, rechonchudos. Desculpe a informalidade, mas culicídeos não são o meu forte.

Leandro, o flanelinha, atende aos dois flancos da rua ouvindo música. Os overdrives das guitarras do Slipknot nada tinham a ver com as reviravoltas cuidadosas de rodas girando lentamente. A banda de heavy-metal norte americana é conhecida por suas apresentações teatrais – usam máscaras à lá Jason e vestes pretas extravagantes. Bebeu muito de Marylin Manson e influenciou o chamado Nu-Metal, no final da década de 90.

- Curto um som pesado, cara. Já ouviu System of a Down?

Essa trupe já me agrada mais. Tanto que confessei isso ao flanelinha metaleiro.

- Pô, gosto sim. Tenho alguns discos, inclusive. Aquele duplo lá, sabe?

Leandro não toca nenhum instrumento. “Até tentei, mas não é pra mim,” confessou.

O papo tomou rumo enquanto colocava o cinto e ligava o som do carro. Embora fosse bem menos pesado do que o ouvido por Leandro, tive de baixar o volume para continuar a escutá-lo.

- O que importa é a música, né? – disse o jovem, dobrando a nota de dois reais e reposicionando o fone, que chiava forte e balançava descompassadamente.

Ash - Girl From Mars.mp3

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Sexta-feira, Janeiro 25, 2008 | 2:22 PM

Ode às trevas

Há exatos 14 dias o sol não aparece - de verdade - em Curitiba. Houve algumas tentativas, modestos raios malcriados que logo sucumbiram às nuvens macambúzias e decididas. Já penso em substituir minha cama por um caixão, visto que o sangue anda me atraindo de uma forma esquisita. Os emos é que devem estar puland... chorando de alegria.

The Beatles – Rain.mp3

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| 9:56 AM

Como seria se assim não fosse

Fábio Ladeia vestia uma camisa do tricolor paulista. Metade de suas pernas, puro osso, desapareciam ante as próteses azuladas. Fazia do banco de madeira o seu espaço pleno, apesar da aparência tímida. Fábio tem mãos finas e olhar pessimista. Quase sempre mirava o chão; as próteses. Em suas 13 primaveras, folhas de outono. Fábio coleciona 13 cirurgias, uma a cada aniversário e, em 17 de fevereiro, fará a 14ª. A primeira foi com um ano de vida.

Mielomeningocele. Esse é o problema. Palavra sinestésica que quase expira seu significado. A doença caracacteriza-se por uma má formação congênita da coluna vertebral. O tecido nervoso da medula escapa por um orifício, formando uma protuberância mole. A medula espinhal fica sem proteção. Membros são acometidos, tolhidos de sua função. No Brasil, a cada mil garotos com camisetas de futebol, um deles – talvez - não vá poder jogar bola. Fábio e seu pai, Roberto – um sujeito risonho e de olhar esperançoso – foram acolhidos pelo Albergue São João Batista enquanto esperam por mais uma consulta. Ou uma boa notícia.

Das primeiras vezes em que frequentou a Casa, Fábio não andava. Arrastava-se. Mãos entornadas ao pescoço do pai e pernas ao léu, insensíveis. Hoje, veste camisa do São Paulo e arrisca alguns chutes em bolas de plástico lá em Assis, cidade do interior de São Paulo, a 488 quilômetros do Hospital Pequeno Príncipe. As visitas ao Albergue são tantas, as impressões são muitas que Roberto, sem perder o sorriso, confirma: “é a sua casa fora de casa.”

O Lar dos Pobres e Albergue São João Batista foi fundado pelo ferroviário Januário Alves de Souza, que a 18 de julho de 1954 iniciou o projeto de construção da primeira sede com os “trocos” que arrecadava nas viagens entre Paraná e Santa Catarina. Desde então, atende a população migrante e carente, do Paraná, de outras regiões do País e até mesmo “brasiguaios”, com proteção, moradia e cinco refeições por dia. A casa original do Albergue, que já sofreu dois incêndios - o último em 1991 - tem capacidade para atender, 24 horas por dia, a 110 pessoas e, desde sua fundação, já acolheu mais de dois milhões de necessitados.

Os atendimentos - realizados por 40 funcionários especializados - só são possíveis devido às doações feitas pela comunidade. Para complementar a receita, funcionam também no Albergue um bazar e a padaria Flor de Maio. O bazar abre-se à comunidade toda quinta-feira, das 13h às 16h. A padaria, onde é possível encontrar a tradicional trança de nozes, além de pães, broas e bolachas, abre de segunda à sexta-feira, das 13h às 17h.

O Albergue São João Batista fica na Rua Piquiri, 326, no Rebouças.
Interessados em doações podem se informar pelo telefone (41) 3333-8373

A conta bancária, para doações em dinheiro, é:

Banco do Brasil
C/C 888 888-4.
Agência 3007-4

Ride - Seagull.mp3

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Segunda-feira, Janeiro 21, 2008 | 3:18 PM

Ao que vem?

Decida-se.
Essa intermitência é só porque é segunda, é isso?
Porque chuva na segunda é como pipoca sem sal;
é como dar beijo sem entortar a cara;
tal qual frio sem fumacinha que sai da boca.
Então vê se chove de uma vez e pára com essa falsa promessa, esparsa em água que não molha.

Lestics - Gênio.mp3

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